
Como Gatinho Novo: crônica de um “vira casaca” |
Dejalma Cremonese
Lembro-me ainda daquela tarde ensolarada de domingo... Bem ao lado da minha casa interiorana, estava lá, o campinho de futebol, onde toda a gurizada da vizinhança se reunia para as famosas “peladas”. Bola de couro era uma raridade, mas improvisávamos com bolas de pano (retalhos) ou até mesmo com as bexigas de porco. Alguém lembra?
Chuteiras? Que nada, era pé descalço mesmo. Depois evoluímos para as "congas" (desaprovamos por serem muito deslizantes) e, mais tarde, para os famosos "kichutes" (feitos de lona e tinham cravos que imitavam uma chuteira de verdade). Foram uma verdadeira modernidade os tais “kichutes”, principalmente por evitar as rosetas, no entanto, o mau cheiro era insuportável. Lembro o dia em que o Side e o Dele (meus dois irmãos mais velhos), ficaram tão eufóricos por terem ganhado os tais kichutes que acabaram dormindo calçados com eles (acordaram com os pés inchados).
Bom, contava eu com 6 prá 7 anos na época, lá pelos meados dos anos 70. Não sei por que cargas d´água, mas toda aquela piazada torcia para o Grêmio: o Paulo, o Nito, o Daniel, o Ênio, o Tonho e eu, logicamente. Por infelicidade, nascemos em uma época em que o time do Inter ganhava todos os campeonatos (era dono do Brasil), octacampeão gaúcho, mais o tricampeonato brasileiro. Todos em volta do rádio só ouviam o narrador gritar “goool do Inter” e nomes como Manga, Figueroa, Falcão, Valdomiro. No entanto, aquela tarde fora inesquecível, pois o Tonho (considerado o líder da gurizada), após mais uma conquista colorada, pegou a bola, deu um balão e gritou eufórico: “De hoje em diante eu torço pro inter”... Não demorou alguns segundos para que cada um de nós gritasse: “eu também torço, eu também...”. Daquele dia até hoje só felicidade, graças ao Tonho, que nos fez “virar a casaca”, sentimos a emoção e o orgulho de torcer por um time que é verdadeiramente um vencedor...
Hoje, no entanto, por ironia do destino, minha filha de 6 anos torce pelo arquirrival (contrariando a mãe e o pai). Lá vou eu pelas ruas, alegre com minha camisa colorada, de mãos dadas com a pequerrucha vestida com a camisa tricolor... e eu tendo que dar explicações... Espero, no entanto, que aconteça a ela o que aconteceu comigo: que, quando ela cresça, possa se dar conta que, time e paixão de verdade só tem um, o mais internacional de todos... o nosso colorado. Pois, assim como os gatinhos, demoramos um pouco para abrir os olhos, mas depois que abrimos...
Professor universitário. Site www.capitalsocialsul.com.br E-mail: dcremoisp@yahoo.com.br Twitter: @cremonese68
