Desde
as suas origens o capitalismo tem passado por constantes crises. Por
vezes pregava-se o livre mercado (não-intervenção
do Estado na economia), noutras ocasiões, pedia-se a sua intervenção,
vide a crise de 1929. Para salvar o sistema econômico da época,
o Estado intervencionista, de inspiração keynesiana foi
acionado. Nos anos 70, no entanto, este modelo entrou novamente em crise.
A partir daquela década, um novo ciclo se constitui, a volta
do livre mercado (liberalização financeira) e da não-intervenção
do Estado, sustentado a partir das teorias de Hayek e Friedman. Este
modelo foi denominado de neoliberalismo.
A teoria neoliberal defendia a volta dos princípios do liberalismo
clássico do século 18, do laissez-faire (livre mercado),
além de reformas estruturais propostas por instituições
internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o
Banco Mundial. Fazia parte deste programa de reestruturação
(ajustes), as reformas administrativa e previdenciária, que exigiram
um rigoroso esforço de equilíbrio fiscal; além
da redefinição do papel do Estado na economia (desregulamentação
econômica). Por desregulamentação econômica
entende-se a tentativa de reduzir o tamanho do Estado, quebrar a coluna
dos sindicatos, cortar os gastos sociais, liberar o mercado financeiro
e abrir as comportas para o livre fluxo de bens e serviços.
Ao contrário do que seus defensores alardeavam, as políticas
neoliberais trouxeram recessão econômica, ingresso do capital
externo, desemprego, aumento do trabalho informal, conflitos sociais,
flexibilização dos direitos trabalhistas, precariedade
e, ao mesmo tempo, o desmonte dos sistemas de seguridade social, de
saúde e de educação.
As práticas neoliberais não fracassam apenas nas questões
sociais. Sustentado em bases um tanto frágeis, economia virtual
e especulativa (capitalismo de cassino), o modelo neoliberal tem enfrentado,
novamente, uma crise sem precedente, uma das maiores do capitalismo
em nível global dos últimos tempos. A crise atual decorre
exatamente do mercado financeiro (defendido até o último
momento pelos liberais como o único guardião e salvador
do mundo). O mercado financeiro fez empréstimos ruins, diz Stiglitz
(ex-chefe do Banco Mundial), como a bolha imobiliária norte-americana,
foram feitos empréstimos com base em preços inflados.
Estes empréstimos não podem ser pagos neste momento.
Agora, com a crise do livre mercado, o Estado é chamado a intervir
novamente. É o pêndulo do relógio que, mais uma
vez se movimenta, a sinalizar que mais um ciclo do capitalismo chega
ao fim.
O epicentro da crise atual começou nos Estados Unidos da América,
sendo a crise de confiança no sistema a razão principal.
A origem está no deslocamento do capital produtivo para o capital
especulativo: muita gente querendo ganhar manipulando dinheiro, uma
embriaguez de enriquecimento sem trabalho. Vive-se especulando em qual
bolsa de valores é possível aplicar e obter bons lucros.
Outro aspecto diz respeito à busca escandalosa por recompensas
econômicas excessivas até a especulação arriscada.
Segundo as palavras de Boaventura de Sousa Santos o impensável
aconteceu: o Estado deixou de ser o problema para voltar a ser a solução.
A palavra não aparece na mídia americana, mas é
disso que se trata: nacionalização. É perceptível,
assim, a direta intervenção do Estado na economia. Governos
de muitos países gastando bilhões de dólares para
socorrer empresas falidas. Em outras palavras: os lucros são
privatizados e as despesas socializadas. Nas palavras do economista
Eduardo Giannetti: “Tem uma coisa profundamente errada do ponto
de vista ético nesse sistema. É uma assimetria inaceitável
de tratamento de ganhos e perdas”.
Cabe encerrar dizendo que a crise atual não é o colapso
do capitalismo, e sim, o fim de um modelo sob a fachada neoliberal (articulação
entre mercado, Estado e sociedade). Os neoliberais sempre pregaram a
não-intervenção do Estado na economia; no entanto,
a intervenção do Estado na economia tem sido a regra e
não a exceção por muitas décadas. Como nos
diz Noam Chomsky: “Nos últimos 15 anos 20 companhias entre
as 100 maiores do mundo não teriam sobrevivido sem a ajuda dos
seus governos. As demais 80 restantes obtiveram ganhos pela via de solicitar
aos seus governos que ‘socializassem as perdas’”.
Quem paga a conta, portanto, somos todos nós. Em outras palavras:
passamos da mão “invisível” do Estado (era
neoliberal) para a mão “visível” do Estado
(momento atual). Mais do que nunca o Estado se faz presente. Aliás,
como sempre, o Estado cumpre sua função básica,
a de manter o sistema capitalista funcionando.