|
Análise
de Conjuntura Política: cenários e projeções
Artigo da Semana e Comentários:
17/11/2007
Mais
Estado e menos mercado
Dejalma Cremonese*
Nos
anos 90, a América Latina passou por profundas reformas estruturais
(neoliberais), a partir das políticas de livre mercado impostas
pelo Consenso de Washington. Fizeram parte desse Programa de Reestruturação
(ajustes) a reforma administrativa e previdenciária, que
exigiram um rigoroso esforço de equilíbrio fiscal;
a redefinição do papel do Estado na economia, que
causou, ao contrário do que seus defensores alardeavam, recessão
econômica, ingresso do capital externo, desemprego, aumento
do trabalho informal, conflitos sociais, flexibilização
dos direitos trabalhistas, precariedade e, ao mesmo tempo, o desmonte
dos sistemas de seguridade social, de saúde e de educação.
No Brasil, as políticas de reestruturação do
Estado deram-se em meados dos anos 90. A principal dela foi a chamada
reforma administrativa, também conhecida como reforma “Bresser-Pereira”
(coordenada por Luiz Carlos Bresser-Pereira, então Ministro
da Administração Federal e da Reforma do Estado no
governo de Fernando Henrique Cardoso).
Porém, mais tarde, o próprio Bresser-Pereira, em artigo
publicado na Folha de São Paulo (2002), reclamava da baixa
confiança dos mercados internacionais frente à economia
brasileira e da vulnerabilidade da mesma frente às constantes
crises econômicas mundiais. Talvez por isso, Bresser-Pereira
lamentou que sua Reforma Administrativa não tivesse alcançado
os resultados esperados. Em suas palavras: “cumprimos uma
parte desse programa, mas, em vez de reconstruir financeiramente
o Estado, endividamo-lo ainda mais”. Em relação
ao processo de privatização, Bresser também
reclamou: “em vez de privatizarmos apenas setores competitivos,
privatizamos também monopólios naturais”. No
Brasil, houve a “flexibilização” do mercado
e a multiplicação da dívida: “em vez
de controlar a entrada de capitais e reduzir a dívida externa,
ampliamo-la; ao invés de mantermos um câmbio relativamente
desvalorizado, como fizeram todos os países que iniciavam
seu desenvolvimento, deixamos que a entrada de capitais valorizasse
nossa moeda e aumentasse artificialmente salários e consumo”.
Seguimos, de joelhos, às normas das instituições
internacionais: “E tudo, nos anos 90, com o apoio do FMI,
do Banco Mundial e dos mercados financeiros internacionais”,
conclui Bresser-Pereira.
A política das privatizações foi a principal
medida das reformas estruturais, sendo que as mesmas reduziram,
consideravelmente, o tamanho e a função do Estado.
O Brasil, desde os anos 90, tem privatizado mais de 70% de suas
empresas estatais. Porém, essa política tem encontrado
resistência da opinião pública: até pouco
tempo os serviços prestados por empresas públicas
eram considerados ineficientes, de baixa qualidade e mal administradas.
Por outro lado, os serviços prestados pela iniciativa privada
eram sinônimos de qualidade e conforto. Essa percepção
parece estar mudando em nossos dias. Segundo dados do Instituto
Ipsos, a maioria do eleitorado brasileiro prefere que o Estado controle
os serviços, sendo que 62% se mostraram contrários
à política de privatizações. Apenas
25% aprovam. Podem-se atribuir esses percentuais, entre outras razões,
ao alto custo e à questionável qualidade dos serviços
privados, principalmente, nos setores da energia elétrica,
telefonia, estradas, água e esgoto.
Se, nos anos 90, presenciamos a uma onda que pregava o afastamento
do Estado das funções e do gerenciamento dos serviços
públicos; agora pede-se que o Estado volte e cumpra sua função
social. Segundo a mesma pesquisa, 74% acreditam que o Estado deve
ser responsável pelos serviços essenciais da população.
Em síntese, a maioria da população quer um
Estado forte com maior proteção social.
*Cientista Político, professor do Departamento
de Ciências Sociais e do
Mestrado em Desenvolvimento da Unijuí – RS
Site Pessoal: www.capitalsocialsul.com.br
e-mail: dcremo@hotmail.com
Mercado x Estado
A década de 1990 foi, em nível mundial, a década
gloriosa do livre mercado. Desde a crise de 1929, quando este modelo
mitológico ruiu, a sociedade construiu, de forma imperfeita,
porém progressiva, dois grandes sistemas econômicos
que de uma forma ou outra, buscavam conter o imperativo do lucro
sobre a pessoa humana: o regime soviético e o Estado de bem
estar social.
O regime Soviético conseguiu dar a população
níveis de desenvolvimento social, de forma relativamente
igualitárias, que o sistema de mercado nem de longe consegue
acompanhar, porém, fez isto, sacrificando o mais democrático
dos sistemas, que era a própria democracia soviética,
que se tornou apenas uma fachada para a ditadura stalinista. O Estado
de bem estar, sobretudo Europeu, conseguiu níveis excelentes
de qualidade de vida para sua população, em regimes
relativamente mais democráticos, porém o fez isso
a custa da exploração de outros povos, em especial
os africanos e latino americanos.
Com a falência de ambos os regimes novamente a visão
de livre mercado triunfa, e pior, se apropria do patrimônio
coletivo que era gerido pelo Estado ao longo do século XX.
Tanto na Europa, como nos antigos paises soviéticos, ou mesmo
na China, e especialmente na América Latina, não só
a economia passa a ser regida pelo mercado, como as privatizações
desmontam os estados nacionais.
As promessas do livre mercado, porém, não se sustentaram
nem por uma década. O aumento da pobreza e as crises, fruto
da financeirização da economia, agora mais global
em seus resultados nefastos, levaram muitos paises as crises, sobretudo
na América Latina, onde o socialismo não chegou –
exceto Cuba – onde o Estado de Bem Estar Social nunca se completou,
mas onde o livre mercado sempre dominou, aliado aos interesses das
elites, especialmente agrárias e financeiras.
Nesta primeira década de séc. XXI, rediscutimos a
retomada do papel do estado na economia e na sociedade. Parece ser
uma visão novamente hegemônica de que este tem papel
a cumprir. Porém, este papel é para a maioria apenas
o combate a pobreza, sem mexer na riqueza.
Um estado moderno, mais do que democrático e participativo,
deve ser o orientador da economia, buscando diminuir sensivelmente
as desigualdades sociais, para tanto, precisa retomar o que foi
privatizado diretamente, ou semi-privatizado (ex.: Vale do Rio Doce,
Petrobrás, Banrisul), necessita estabelecer taxações
progressivas ao capital especulativo, as grandes fortunas, as heranças,
realizar uma reforma agrária que não apenas elimine
as grandes extensões de terra, mas mude a base agrícola
nacional, atualmente voltada para produção de commodities.
Para estas e outras tarefas, será necessário um estado
de novo tipo, capaz de organizar uma economia mista, onde a inserção
do mercado seja controlada e subordinada aos interesses da sociedade
e esta atendida em suas necessidades (saúde, educação,
segurança alimentar, previdência, trabalho), por sistemas
públicos geridos pelo Estado democrático e participativo.
São ações, não apenas no campo econômico,
mas sobretudo político, que exigem uma postura de sociedade,
que só pode ser tomada a partir da hegemonia política
daqueles que não são os donos dos meios de produção,
ou seja, da maioria do povo.
Um bom exemplo a seguir é a Venezuela, onde apesar da mídia
latino-americana apontar a questão da reeleição
como a questão central, é fácil perceber que
o que esta em jogo no país visinho é se o mercado
perderá ou não poder para a sociedade, representada
no Estado Bolivariano da Venezuela.
Fabio Lemes
e-mail: lemescst@yahoo.com.br
MSN: flemes2007@hotmail.com
Fone: 55 8407 4087
Ijuí/RS
Mais Estado e menos mercado
A pesquisa demonstra que há preferência pelos serviços
prestados pelo Estado, e que a maioria da população
quer um Estado forte com maior proteção social. Não
basta querer, é preciso ação frente á
realidade de privatizações das empresas estatais,
e esta somente se dará com o voto consciente da população,
voto em pessoas que defendam os interesses nacionais e que realmente
estejam preocupados com o desenvolvimento do Brasil !
Leila Cristiane Wathier
Aluna de SPC/EaD – Ciências Biológicas
Mais Estado menos mercado
Falar de privatizações é sempre
uma questão complicada, pois envolve muitas questões
de cunho ideológico-partidario.
Vou tentar realizar uma análise dos fatos através
de uma abordagem empírica, haja vista a notoriedade dos dados.
Obviamente os serviços privatizados melhoraram visivelmente,
principalmente serviços de telefonia e energia, que são
os mais utilizados pela população em geral, tem melhorando
muito, embora os preços tem aumentado sobremaneira. Entretanto,
cabe indagar, o que vale mais, a utilização de um
serviço estatal com um preço mais baixo, mas com baixa
qualidade, ou a possibilidade de acesso ilimitado a um serviço
de qualidade e com alta tecnologia com um preço mais elevado?
Outra questão importante a ser vislumbrada é a corrupção,
mazela infelizmente muito difundida em nossos órgãos
públicos. A lógica é a de que, quanto maior
o tamanho do Estado, maior a possibilidade de corrupção.
Também é relevante compreender que as agências
reguladoras exercem um papel controle destes serviços, portanto
o Estado não perde totalmente o mando sobre os serviços
privatizados, embora o controle seja exercido sem a devida eficácia.
Assim, a idéia demonstrada pela população de
que a privatização é algo ruim, demonstra uma
opinião desprovida de conhecimento sobre o assunto e com
alto grau de ideologismo.
Assim, acredito que as privatizações são, na
atual conjuntura estatal brasileira, um movimento bom de modernização
e agilização de serviços públicos relevantes,
entretanto cabe ressaltar que a forma de privatização
poderia ser alterado para implementação de mais responsabilidade
as empresas compradoras, bem como o sistema de controle, realizado
pelas agências reguladoras estatais, poderia ser bem mais
desenvolvido.
Adriano Mauss – Mestrando em Desenvolvimento
– UNIJUI
MAIS ESTADO MENOS MERCADO
Inegável e indiscutível foi à
aderência do Brasil, as políticas neoliberais impostas
pelo FMI e Banco Mundial nos anos 90. Entretanto tais políticas
foram necessárias naquele momento da economia, eis que, o
país necessitava de recursos dessas Instituições,
para sanar ou pelo menos tentar sanar problemas sociais, decorrentes
de situações históricas vividas ao longo de
anos de repressão e Ditadura Militar. Cabe destacar que as
políticas neoliberais, visam criar um Estado mínimo,
transferindo à iniciativa privada serviços e atendimentos
a população que deveriam ser oferecidos pelo Estado.
O Estado engessado, diante das circunstâncias e do dever de
atender as políticas exigidas pelo FMI e Banco Mundial, acabou
por acatar tais determinações, privatizando a maioria
das Estatais que o país possuía. Porém, a expectativa
criada pela população, que esperava uma melhor prestação
de serviços em todos os segmentos privatizados, não
está tendo a resposta esperada, além de ter que pagar
um valor muito mais elevado pelos serviços prestados.
Cabe ainda destacar que a população
solicita a volta do Estado, como responsável pelos serviços
que de regra deveriam ser de sua atuação, em razão
do atual governo brasileiro desenvolver políticas voltadas
para o social, buscando a redução da desigualdade
social, situação que ocorreu em menores proporções
em governos anteriores. Diante de um Estado (governo), mais voltado
para questões sociais à população está
ciente dos deveres e dos serviços que o Estado tem que realizar
junto a ela, sendo possivelmente a razão que esta mesma população
almeja a volta do Estado como executor de serviços essenciais
e forte em questões sociais.
Elisa Adriana Haubert e Cleder Marcelo Ohse Ecker
Mestrandos em Desenvolvimento - UNIJUI
|