ENTREVISTA
- REFORMA POLÍTICA: ENTRAVES E PERSPECTIVAS - entrevista
concedida ao Jornal O Reporter, janeiro de 2009.
"Você conhece alguém que fabrica uma chibata para
apanhar com ela?"
Ex-Deputado João Caldas (PL-AL)
O
tema:
O tema entra
em pauta novamente, sendo prioridade do governo Lula nos próximos
meses (primeiro semestre de 2009). Mas é claro, sem mudanças
expressivas.
O Projeto
de Lei 2.679
O debate sobre
o Projeto de Lei (2.679 de 2003) da chamada reforma política
tem ocupado um lugar de destaque no meio político, na opinião
pública e nas organizações sociais nos últimos
anos. No entanto, pouco se tem avançado no consenso e na
efetividade da mesma. O que temos, até o momento, são
apenas dúvidas, desconfianças ou mesmo ceticismo sobre
tal reforma. Diante disso pergunta-se: se a reforma política
vier a ser realizada, pode-se esperar que ela resolva as mazelas
(vícios) culturais e institucionais da política brasileira?
Os pontos
em pauta
O referido Projeto
de Lei, da Comissão Especial de Reforma Política,
dispõe sobre a fidelidade partidária, pesquisas eleitorais,
o voto de legenda em listas partidárias preordenadas, a instituição
de federações partidárias, o funcionamento
parlamentar, a propaganda eleitoral, o financiamento público
de campanha e as coligações partidárias, alterando
a Lei n.º 4.737, de 15 de julho de 1965 (Código Eleitoral),
a Lei n.º 9.096, de 19 de setembro de 1995 (Lei dos Partidos
Políticos) e a Lei n.º 9.504, de 30 de setembro de 1997
(Lei das Eleições).
Ceticismo
com a Reforma Política
No entanto,
do jeito que a reforma política está sendo proposta
é pouco provável que alcance resultados satisfatórios.
O próprio presidente Lula acredita que a reforma política
só sairá do papel caso seja convocada uma nova Assembléia
Constituinte (paralela), com novos representantes escolhidos pelo
povo para tratar especificamente deste assunto. A idéia também
foi defendida pelo próprio PT no último Congresso
do Partido. Como se fosse possível a neutralidade, a isenção
e a imparcialidade dos novos constituintes nas tomadas das decisões:
estariam eles defendendo os reais interesses dos eleitores ou continuariam
sendo meros representantes de grupos privados?
Desconfiança
com as instituições políticas
Considerando
o momento atual das instituições e dos atores políticos
(alta desconfiança por parte do eleitorado: 82% não
confiam nos políticos), são mínimas as chances
de que a reforma política venha a ser realizada, mas, se
vier, será pouco provável que alcance o êxito
esperado. Nem mesmo a idéia esdrúxula de convocar
uma nova Constituinte resolveria o problema. A frase do ex-deputado
João Caldas, do PL de Alagoas, é elucidativa, ou seja,
ninguém vai aprovar um projeto que, daqui a alguns meses,
ou nas próximas eleições, possa prejudicar
ou comprometer a sua (re)eleição. Assim, haveremos
de concordar com a afirmação de Benevides: a julgar
pelo andar modorrento dos pretensos reformistas, caímos num
círculo vicioso: não consolidamos a democracia porque
nos falta verdadeiros partidos, não temos partidos porque
nos falta a verdadeira democracia. Como nos diria Eça de
Queiroz: estamos bem arranjados.
Reforma
política só com participação popular
Apesar do quadro
desolador, porém, é preciso manter a mobilização
e não desacreditar. Como nos ensina Comparato, citando Gramsci:
É preciso ser absolutamente pessimista no diagnóstico,
mas manter a mais acesa esperança na ação.
Qual a saída? Acredita-se que somente com a participação
popular e a sociedade civil organizada a reforma política
chegará a bons termos. Sem a participação popular
(diálogo com os eleitores), acredito que a reforma política
tenderá a manter os vícios culturais e institucionais
da política brasileira (personalismo, clientelismo, patrimonialismo
e tantos outros “ismos”), vindo a enfraquecer ainda
mais nossas instituições políticas.