LIXO
DO CAPITALISMO - entrevista concedida à Elenise Carneiro -
Jornal O Repórter, 12-03-09
Diariamente
vemos inúmeras crianças, jovens e até idosos,
catando lixo para poder sobreviver, sendo associados à forma
pública de expor a pobreza. Porém, "coletar lixo"
é a alternativa que as pessoas excluídas do mercado
de trabalho encontraram, buscando uma forma de inserção
no mundo social. Mas o desemprego, a falta de oportunidades e outros
fatores contribuem para essa realidade aumentar.
Luciano
Siqueira, 22 anos, acorda às cinco horas da madrugada para
catar lixo pelas ruas da cidade de Ijuí. Um ofício digno
de que ele tem muito orgulho. Segundo o jovem, é com o dinheiro
que ele e sua família recebem fazendo fretes com o que catam
nos lixos que se mantêm. “Temos a nossa própria
firma, vamos deixando o lixo em casa, empilhamos nos “big bag”,
que são sacolas grandes, e quando estão bem cheias mandamos
para o caminhão. Cobramos quinze pila cada frete, geralmente
dá umas cinco carroças no dia. Aí faz a conta:
se é quinze pila o frete, cinco carroças quanto não
vai dar? É uma boa grana que tiramos.”
“Tem dias que não dá nada, mas tem semanas que
a gente tira o coro do cavalo e o nosso de tanto carregar frete, porque
daí dá uns seis, sete na semana”, diz Luciano.
Morador do bairro Getulio Vargas, ele vai para casa almoçar
por volta do meio dia, saindo para as ruas às treze horas,
e depois volta ao anoitecer. “Vamos em uns dois ou três.
Saímos eu, meu pai e meu sobrinho, porque ele gosta de sair
com nós, é divertido, gosta de estar com a gente pra
lá é pra cá.”
O catador revela gostar de sair para catar lixo na rua, até
porque não tem outra coisa para fazer, ai é essa sua
obrigação, destacando que é preciso se cuidar
dos acidentes. Ele também relata que às vezes muitas
pessoas se acham superiores a eles. “Tem uns bacanas que olham
de um jeito meio estranho, mas tem um ditado que as pessoas são
tudo as mesmas, porque depois que morrer tudo tem o mesmo cheiro.
Só que ninguém chega e conversa com o cara.”
FALTA DE OPORTUNIDADES – Ele conta que não estuda:
“Passou a minha idade de estudar sou bem inteligente já,
o suficiente. E, tá louco, voltar estudar aos 22 anos, nem
pensar. Parei na 8ª série, e era para mim estudar de noite,
mas sabe como é, né, o cara vai de noite já vai
para fazer folia, então é melhor deixar quieto. O que
quero mesmo é trabalhar. Só que aqui em Ijuí
falta emprego, sabia?”indaga o catador.
E continua dizendo: “Falta bastante serviço, e não
adianta todo mundo dizer para sair procurar que vamos achar alguma
coisa. O cara chega numa firma, pede serviço, mostra os documentos,
diz o que sabe fazer, mas não adianta”. Ele conta que
os empregadores dizem para ele passar outra semana, que quem sabe
estejam precisando, mas não chamam. “Daí o cara
não consegue, e desiste por falta de oportunidade. Eu já
corri um monte de firma por aí, gostaria de trabalhar onde
tem serviço, eu sirvo um pouco de pedreiro, marceneiro, mas
tudo que tem tô fazendo.”
Luciano fala que trabalha desde oito anos de idade, estudava de manhã,
e de tarde saia para fazer uns trocos, porque gosta de trabalhar.
E conclui dizendo que agora é uma época boa de lutar
por emprego, cobrando dos políticos. Porém, o problema
é que eles fazem muitas promessas. “Eles dizem, votem
em mim que vou fazer o que falta na cidade. Mas eu sei que político
é tudo mentira, nunca vi algum cumprir com a palavra. Estão
lá só para ganhar dinheiro, precisam perceber que aqui
em Ijuí é preciso emprego para todo mundo trabalhar.”
LIXO
DO CAPITALISMO - De acordo com o cientista político
Dr. Dejalma Cremonese, a situação dos catadores de lixo
é conseqüência de que, no capitalismo, poucos são
os incluídos com direito aos bens de consumo, capital e lucro.
“Para muitos restam as “sobras”. As causas da pobreza
são: a desigualdade social, a falta de políticas públicas
do Estado (União, estado e município) e a falta de empregos.
Todas estas causas vêm gerando miséria e fome, exclusão
social, sendo a parte mais visível da pobreza.”
Conforme Cremonese, “o ‘outro’ que cata o lixo,
as sobras, é ao mesmo tempo o ‘eu’ excluído,
a alteridade negada”. Todos têm a necessidade de continuar
vivendo, de uma forma ou de outra. O lixo é, para muitos, talvez
a única alternativa. As conseqüências dessa situação
são irreparáveis. Por isso, o cientista político
não acredita muito que a sociedade vá reconhecer alguém
que vasculhe nossos lixos. Para ele o máximo que podemos pensar
é que se contentem com as sobras.
Já o economista e professor da Unicruz Carlos Frederico de
Oliveira Cunha diz que o capitalismo e outros modos de produção
nunca conseguiram inserir toda a população em idade
ativa ao trabalho regulado (formalidade). “Essa população
“excluída” em maior ou menor quantidade sobrevivia
de ações particulares, das igrejas, ou de governos com
doações próximas à miserabilidade.”
FONTE DE RENDA – Cunha prossegue dizendo que concorda
que essas pessoas executam um trabalho que é extremamente insalubre,
o grau de informalidade é enorme e estão fora da lógica
vigente de produção. “Pude observar numa visita
a uma Associação de catadores de Ijuí, que na
ausência desses empregos formais essas pessoas percebem que
esse trabalho é digno na medida em que não estão
cometendo nenhum crime e extraem desse "lixo" sua fonte
de renda. No entanto, alguns, quando conseguem um emprego formal,
abandonam a Associação, caracterizando a idéia
de alguns de que aquela atividade é só temporária
e precária.”
Como economista ele entende que as pessoas excluídas da esfera
da produção e do consumo (sem renda para sobreviver)
devem se organizar para conseguir renda seja na formalidade ou na
informalidade, principalmente quando o estado e o sistema econômico
(capitalismo) não garantem o direito à sobrevivência,
inclusive previsto na Constituição Federal. “As
pessoas que sobrevivem dos resíduos do capitalismo urbano-industrial
deveriam ter condições de trabalho mais dignas, sem
se expor ao frio, a doenças e a condições insalubres
desta atividade”, afirma.
Para
ele sobreviver com pouca renda parece ser melhor do que viver sem
nenhuma. “A luta pela sobrevivência faz o ser humano buscar
a melhor forma para isso. Obviamente, a visita que fiz a esta associação
foi muito rica. As pessoas envolvidas nesta atividade são dignas
e querem ser reconhecidas como tais através de seu trabalho
de catadores de lixo.”
EXPOSIÇÃO DA POBREZA - Dilson Trennepohl coordenador
do curso de Economia da Unijuí afirma que expor a pobreza de
forma pública talvez seja a forma mais dramática de
percebê-la. “Basta transitar pelas vilas e bairros de
qualquer município para ver que ela está exposta nas
condições de moradia, de higiene, de alimentação,
de saneamento básico desta população. Ou então
olhar as estatísticas e ver que 40 milhões de brasileiros
são beneficiados com a bolsa família (é muita
gente, ganhando valores miseráveis). As famílias humildes
(pobres) conseguem sobreviver com muito pouco (em valor monetário)
porque contam com muito de solidariedade, proteção mútua
e resistência comunitária.”
Dilson relata que os valores arrecadados na coleta de lixo não
são tão baixos assim, e que estão associados
a outras atividades ou pequenas rendas. Pois o grande problema é
que a coleta de lixo não está organizada de forma adequada.
“Pode se constituir numa atividade menos penosa, menos agressiva
à saúde dos trabalhadores, se for organizada desde a
coleta seletiva, o transporte adequado e os processos de reciclagem.
Por isso, cabe ao poder público organizar a atividade de Coleta
Seletiva do Lixo, bem como todo o processo de destinação
final dos diferentes componentes.”
Para Trennepohl, a coleta inclui a qualificação e profissionalização
dos trabalhadores envolvidos na atividade. “Esta é uma
atividade socialmente necessária e, portanto, deve ter reconhecimento
e valorização da sociedade e do poder público.
Por fim, embora a pobreza apareça muitas vezes misturada ao
lixo, penso que são dois problemas distintos sobre os quais
a sociedade precisa refletir e agir.”
ESCOLARIZAÇÃO – De acordo com
a antropóloga Noelle Lechat, que também ajudou organizar
a ACATA, uma das associações de catadores: “Vários
fatores conjugam-se, para mostrar essa realidade, mas com certeza
um fator importante vem já da infância. Para muitos a
escolarização tão pouco foi tranqüila”.
Pois a necessidade de trabalhar muito jovem para ganhar a vida e a
falta de oportunidades para adquirir uma formação profissional
também estão presentes. “Se você nunca trabalhou
num emprego estável e valorizado que realize a pessoa, é
difícil você adquirir a disciplina necessária
para se encaixar num emprego formal.”
“Não quero dizer que com isso eles sejam os responsáveis
da situação na qual se encontram, eles são as
vítimas de um sistema que exclui as pessoas mais do que integra
e que não dá chance para corrigir condições
iniciais desfavoráveis. As crianças precisam acompanhar
já que não há ninguém em casa para cuidar
deles, ou para ajudar na renda. Isso acarreta deficiência nutricional,
doenças, ausência da escola, falta de motivação,
baixa estima, depressão, desespero e busca de paraísos
artificiais”, completa.
A antropóloga finaliza, falando que eles ficam no círculo
vicioso da reprodução da pobreza. “A coleta seletiva
é o primeiro passo para mudar essa realidade. Pois se todos
nos começassem a separar o papel, o papelão, o plástico,
os metais, o alumínio e os vidros para entregar para a coleta
seletiva ou diretamente para uma associação de catadores,
eles não precisariam mais estar na rua. De catadores poderiam
tornar-se recicladores, poderiam também aumentar sua renda.”