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Data da última Atualização: 10.03.2009 10:21

LIXO DO CAPITALISMO - entrevista concedida à Elenise Carneiro - Jornal O Repórter, 12-03-09

Diariamente vemos inúmeras crianças, jovens e até idosos, catando lixo para poder sobreviver, sendo associados à forma pública de expor a pobreza. Porém, "coletar lixo" é a alternativa que as pessoas excluídas do mercado de trabalho encontraram, buscando uma forma de inserção no mundo social. Mas o desemprego, a falta de oportunidades e outros fatores contribuem para essa realidade aumentar.

Luciano Siqueira, 22 anos, acorda às cinco horas da madrugada para catar lixo pelas ruas da cidade de Ijuí. Um ofício digno de que ele tem muito orgulho. Segundo o jovem, é com o dinheiro que ele e sua família recebem fazendo fretes com o que catam nos lixos que se mantêm. “Temos a nossa própria firma, vamos deixando o lixo em casa, empilhamos nos “big bag”, que são sacolas grandes, e quando estão bem cheias mandamos para o caminhão. Cobramos quinze pila cada frete, geralmente dá umas cinco carroças no dia. Aí faz a conta: se é quinze pila o frete, cinco carroças quanto não vai dar? É uma boa grana que tiramos.”

“Tem dias que não dá nada, mas tem semanas que a gente tira o coro do cavalo e o nosso de tanto carregar frete, porque daí dá uns seis, sete na semana”, diz Luciano. Morador do bairro Getulio Vargas, ele vai para casa almoçar por volta do meio dia, saindo para as ruas às treze horas, e depois volta ao anoitecer. “Vamos em uns dois ou três. Saímos eu, meu pai e meu sobrinho, porque ele gosta de sair com nós, é divertido, gosta de estar com a gente pra lá é pra cá.”

O catador revela gostar de sair para catar lixo na rua, até porque não tem outra coisa para fazer, ai é essa sua obrigação, destacando que é preciso se cuidar dos acidentes. Ele também relata que às vezes muitas pessoas se acham superiores a eles. “Tem uns bacanas que olham de um jeito meio estranho, mas tem um ditado que as pessoas são tudo as mesmas, porque depois que morrer tudo tem o mesmo cheiro. Só que ninguém chega e conversa com o cara.”

FALTA DE OPORTUNIDADES – Ele conta que não estuda: “Passou a minha idade de estudar sou bem inteligente já, o suficiente. E, tá louco, voltar estudar aos 22 anos, nem pensar. Parei na 8ª série, e era para mim estudar de noite, mas sabe como é, né, o cara vai de noite já vai para fazer folia, então é melhor deixar quieto. O que quero mesmo é trabalhar. Só que aqui em Ijuí falta emprego, sabia?”indaga o catador.

E continua dizendo: “Falta bastante serviço, e não adianta todo mundo dizer para sair procurar que vamos achar alguma coisa. O cara chega numa firma, pede serviço, mostra os documentos, diz o que sabe fazer, mas não adianta”. Ele conta que os empregadores dizem para ele passar outra semana, que quem sabe estejam precisando, mas não chamam. “Daí o cara não consegue, e desiste por falta de oportunidade. Eu já corri um monte de firma por aí, gostaria de trabalhar onde tem serviço, eu sirvo um pouco de pedreiro, marceneiro, mas tudo que tem tô fazendo.”

Luciano fala que trabalha desde oito anos de idade, estudava de manhã, e de tarde saia para fazer uns trocos, porque gosta de trabalhar. E conclui dizendo que agora é uma época boa de lutar por emprego, cobrando dos políticos. Porém, o problema é que eles fazem muitas promessas. “Eles dizem, votem em mim que vou fazer o que falta na cidade. Mas eu sei que político é tudo mentira, nunca vi algum cumprir com a palavra. Estão lá só para ganhar dinheiro, precisam perceber que aqui em Ijuí é preciso emprego para todo mundo trabalhar.”

LIXO DO CAPITALISMO - De acordo com o cientista político Dr. Dejalma Cremonese, a situação dos catadores de lixo é conseqüência de que, no capitalismo, poucos são os incluídos com direito aos bens de consumo, capital e lucro. “Para muitos restam as “sobras”. As causas da pobreza são: a desigualdade social, a falta de políticas públicas do Estado (União, estado e município) e a falta de empregos. Todas estas causas vêm gerando miséria e fome, exclusão social, sendo a parte mais visível da pobreza.”

Conforme Cremonese, “o ‘outro’ que cata o lixo, as sobras, é ao mesmo tempo o ‘eu’ excluído, a alteridade negada”. Todos têm a necessidade de continuar vivendo, de uma forma ou de outra. O lixo é, para muitos, talvez a única alternativa. As conseqüências dessa situação são irreparáveis. Por isso, o cientista político não acredita muito que a sociedade vá reconhecer alguém que vasculhe nossos lixos. Para ele o máximo que podemos pensar é que se contentem com as sobras.

Já o economista e professor da Unicruz Carlos Frederico de Oliveira Cunha diz que o capitalismo e outros modos de produção nunca conseguiram inserir toda a população em idade ativa ao trabalho regulado (formalidade). “Essa população “excluída” em maior ou menor quantidade sobrevivia de ações particulares, das igrejas, ou de governos com doações próximas à miserabilidade.”

FONTE DE RENDA – Cunha prossegue dizendo que concorda que essas pessoas executam um trabalho que é extremamente insalubre, o grau de informalidade é enorme e estão fora da lógica vigente de produção. “Pude observar numa visita a uma Associação de catadores de Ijuí, que na ausência desses empregos formais essas pessoas percebem que esse trabalho é digno na medida em que não estão cometendo nenhum crime e extraem desse "lixo" sua fonte de renda. No entanto, alguns, quando conseguem um emprego formal, abandonam a Associação, caracterizando a idéia de alguns de que aquela atividade é só temporária e precária.”

Como economista ele entende que as pessoas excluídas da esfera da produção e do consumo (sem renda para sobreviver) devem se organizar para conseguir renda seja na formalidade ou na informalidade, principalmente quando o estado e o sistema econômico (capitalismo) não garantem o direito à sobrevivência, inclusive previsto na Constituição Federal. “As pessoas que sobrevivem dos resíduos do capitalismo urbano-industrial deveriam ter condições de trabalho mais dignas, sem se expor ao frio, a doenças e a condições insalubres desta atividade”, afirma.

Para ele sobreviver com pouca renda parece ser melhor do que viver sem nenhuma. “A luta pela sobrevivência faz o ser humano buscar a melhor forma para isso. Obviamente, a visita que fiz a esta associação foi muito rica. As pessoas envolvidas nesta atividade são dignas e querem ser reconhecidas como tais através de seu trabalho de catadores de lixo.”

EXPOSIÇÃO DA POBREZA - Dilson Trennepohl coordenador do curso de Economia da Unijuí afirma que expor a pobreza de forma pública talvez seja a forma mais dramática de percebê-la. “Basta transitar pelas vilas e bairros de qualquer município para ver que ela está exposta nas condições de moradia, de higiene, de alimentação, de saneamento básico desta população. Ou então olhar as estatísticas e ver que 40 milhões de brasileiros são beneficiados com a bolsa família (é muita gente, ganhando valores miseráveis). As famílias humildes (pobres) conseguem sobreviver com muito pouco (em valor monetário) porque contam com muito de solidariedade, proteção mútua e resistência comunitária.”

Dilson relata que os valores arrecadados na coleta de lixo não são tão baixos assim, e que estão associados a outras atividades ou pequenas rendas. Pois o grande problema é que a coleta de lixo não está organizada de forma adequada. “Pode se constituir numa atividade menos penosa, menos agressiva à saúde dos trabalhadores, se for organizada desde a coleta seletiva, o transporte adequado e os processos de reciclagem. Por isso, cabe ao poder público organizar a atividade de Coleta Seletiva do Lixo, bem como todo o processo de destinação final dos diferentes componentes.”

Para Trennepohl, a coleta inclui a qualificação e profissionalização dos trabalhadores envolvidos na atividade. “Esta é uma atividade socialmente necessária e, portanto, deve ter reconhecimento e valorização da sociedade e do poder público. Por fim, embora a pobreza apareça muitas vezes misturada ao lixo, penso que são dois problemas distintos sobre os quais a sociedade precisa refletir e agir.”

ESCOLARIZAÇÃO – De acordo com a antropóloga Noelle Lechat, que também ajudou organizar a ACATA, uma das associações de catadores: “Vários fatores conjugam-se, para mostrar essa realidade, mas com certeza um fator importante vem já da infância. Para muitos a escolarização tão pouco foi tranqüila”. Pois a necessidade de trabalhar muito jovem para ganhar a vida e a falta de oportunidades para adquirir uma formação profissional também estão presentes. “Se você nunca trabalhou num emprego estável e valorizado que realize a pessoa, é difícil você adquirir a disciplina necessária para se encaixar num emprego formal.”

“Não quero dizer que com isso eles sejam os responsáveis da situação na qual se encontram, eles são as vítimas de um sistema que exclui as pessoas mais do que integra e que não dá chance para corrigir condições iniciais desfavoráveis. As crianças precisam acompanhar já que não há ninguém em casa para cuidar deles, ou para ajudar na renda. Isso acarreta deficiência nutricional, doenças, ausência da escola, falta de motivação, baixa estima, depressão, desespero e busca de paraísos artificiais”, completa.

A antropóloga finaliza, falando que eles ficam no círculo vicioso da reprodução da pobreza. “A coleta seletiva é o primeiro passo para mudar essa realidade. Pois se todos nos começassem a separar o papel, o papelão, o plástico, os metais, o alumínio e os vidros para entregar para a coleta seletiva ou diretamente para uma associação de catadores, eles não precisariam mais estar na rua. De catadores poderiam tornar-se recicladores, poderiam também aumentar sua renda.”

 

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Edição e atualização: Dr. Dejalma Cremonese - dcremo@yahoo.com.br