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Data da última Atualização: 10.03.2009 10:46

NÓS – OS IJUIENSES: QUEM SOMOS E O QUE PENSAMOS (Parte I)

Dr. Dejalma Cremonese – Cientista Político
Prof. do Depto. de Ciências Sociais e do
Mestrado em Desenvolvimento da Unijuí
Site: www.capitalsocialsul.com.br
E-mail: dcre@unijui.edu.br

Ao comemorar o 117º aniversário da fundação de Ijuí, nada melhor do que apresentar algumas informações de quem é, e o que pensa o ijuiense. Os dados e os comentários desta reportagem só foram possíveis graças à análise dos resultados de uma pesquisa de opinião (survey), realizada entre maio/agosto de 2005 com 400 pessoas de 11 bairros da cidade, acima de 16 anos. Em alguns resultados, foi possível fazer uma comparação longitudinal com uma pesquisa aplicada no município de Ijuí no ano de 1968.

Esta reportagem está dividida em três partes. A primeira trata do perfil dos ijuienses (educação, renda, problemas sociais, satisfação, predominância étnica e religiosa). Ainda trabalhando com os dados empíricos, a segunda parte irá tratar da percepção política (avaliação dos serviços de Ijuí, a eficiência do Estado na aplicação dos recursos, a satisfação com o funcionamento da democracia, a identificação com partidos políticos e o modo como o ijuiense vota); na terceira parte, serão apresentadas algumas variáveis do capital social da sociedade ijuiense .

O perfil do ijuiense

A questão da educação (evolução)

O plano amostral da pesquisa atingiu uma população composta de 47% de homens e 53% de mulheres. Do total dos entrevistados, a pesquisa mostrou que 60,8% cursaram o ensino fundamental (completo ou incompleto), 23% o nível médio (completo ou incompleto) e 14,3% estão cursando ou concluíram o curso superior. Quanto ao nível de educação dos ijuienses, a comparação entre os resultados das pesquisas (1968-2005) constata que tem melhorado significativamente em todos os níveis, principalmente, com um menor percentual entre os analfabetos e os que não concluíram o Ensino Fundamental.

A pesquisa monstrou também um crescimento de 9,6 pontos percentuais entre as pessoas que concluíram o nível superior entre 1968 e 2005. Ou seja, um aumento de mais de 300% na população que está cursando ou já cursou o nível superior.

A situação econômica do ijuiense

No que se refere à renda per capita mensal, percebe-se que a maioria da população de Ijuí tem uma baixa renda: 50% da população ganham de R$ 33 a R$ 300, enquanto que 41,6% ganham de R$ 301 a R$ 800. Os que ganham acima de 1000 reais totalizam apenas 3,5% da população ijuiense.

Considerando os dados referentes à renda dos habitantes de Ijuí a partir da faixa per capita por salário mínimo, percebe-se que mais da metade da população de Ijuí sobrevive com até um salário mínimo mensal; 43,5% ganha até 3 salários, menos de 3% da população ganha até 5 salário mínimos e, uma minoria, 1,9% ganha mais de 5 salário mínimos.

Perguntou-se ainda se, no final do mês, as pessoas conseguiam poupar algum dinheiro; a resposta, porém, confirma os dados do baixo poder aquisitivo da população. A maioria (54,1%) dos entrevistados respondeu que “não consegue poupar nenhum dinheiro”. 30,8% responderam “às vezes” e apenas 12,3% admitiram que conseguem poupar algum dinheiro no final do mês. Em relação à classe social, a maioria dos entrevistados (55,9%) respondeu que pertence à classe média e 41,8% afirmaram pertencer à classe baixa. Coerentemente com o dado anterior (renda per capita), a população de Ijuí não mencionou em nenhum momento pertencer à classe alta. Em comparação com os dados de 1968, os de 2005 apresentam-se um pouco mais otimistas em relação à classe que pertence: em 1968, o percentual de entrevistados que se dizia de classe média era de 43,4% e aqueles que diziam pertencer à classe pobre era de 54,5%. Segundo os dados atuais, nos últimos anos tem diminuído o percentual de pobres e aumentado o percentual de classe média.

Quanto à situação profissional dos moradores de Ijuí, 31,8% responderam que são empregados assalariados; 17% afirmaram ser autônomos; 15,8% são aposentados; 10,5% responderam estar desempregados; 9,8% afirmaram ser estudantes e 7,8%, que são donas de casa. A tendência é de que o número de desempregados possa ser maior, pois algumas pessoas que responderam trabalhar por conta própria, muitas vezes, apenas sobrevivem de biscates, serviço temporário ou atividades informais.

Problemas sociais e econômicos foram os mais mencionados pela população quando questionada sobre o principal problema do Brasil na atualidade: 31,0% responderam que o desemprego é o pior problema; seguido pela corrupção, 13,5%. A fome e a miséria vêm com 9,5% e a educação deficiente com 4,3% dos entrevistados. Outros problemas também foram citados pelos entrevistados.

Uma das evidências desse quadro é de que a percepção do ijuiense frente à situação econômica e social do país é altamente negativa. Mais de 60% dos entrevistados levantaram problemas de dimensões sociais, que incidem iretamente na qualidade de vida dos cidadãos.

Percepção pessoal: satisfação, realização e felicidade

No que se refere à percepção pessoal do entrevistado frente às oportunidades intergeracionais, grau de satisfação, realização e felicidade, os dados da pesquisa monstram que a maioria dos ijuienses (73,3%) acha que as oportunidades de hoje são melhores em relação à geração de seus pais e, ainda, que as oportunidades da geração das crianças de hoje, comparadas com as de sua geração, também são melhores (64%).

Considerando que a satisfação e a felicidade são manifestações de uma comunidade cívica, perguntou-se também se os ijuienses sentiam-se felizes, satisfeitos, confiantes e realizados. No entanto, os resultados tendem a apontar para dados preocupantes em relação à insatisfação, insegurança e frustração: 64% dos entrevistados responderam que se sentem felizes e 17% responderam que se sentem infelizes. Quanto à satisfação, 54,5% responderam que se sentem satisfeitos contra 31% de insatisfeitos. O percentual diminuiu quando os entrevistados foram perguntados se se sentem realizados, 44,3% responderam que sim, enquanto que o grau de frustração é de 31,8%. Sobre a questão da confiança e insegurança, os percentuais são quase iguais. 45,8% dizem-se confiantes, enquanto 43,5% responderam estar inseguros na sociedade atual.

Predominância étnica e religiosa

Sabemos historicamente que o município de Ijuí foi marcado imensamente no seu processo de colonização pela diversidade étnico-cultural. Notou-se, em Ijuí, desde o princípio, o grande número de imigrantes europeus que garantiu predomínio numérico de pessoas brancas sobre as demais. No entanto, com o passar dos anos, a etnia branca tem diminuído no município e aumentado o percentual de morenos, pardos e mestiços. Dados da pesquisa feita por Trindade (1968) apontavam para um percentual de 84,7% que afirmavam ser da etnia branca; 4,1% se diziam da etnia negra e apenas 8,4% afirmavam ser morena, parda ou mestiça. Dados da pesquisa de 2005 apontam para um percentual de 80,0% da população que dizem ser branca; 4,3% dizem ser negra e, 15,1% afirmaram ser morena, parda ou mestiça.

A religião predominante em Ijuí ainda é a Católica, com 61% da população, embora tenha declinado em torno de 11 pontos percentuais o número de seus fiéis nas últimas décadas. Os protestantes (evangélicos tradicionais), com apenas 5,8%, também declinaram em torno de 11 pontos percentuais. O interessante é que na pesquisa 2005 aparece o percentual de evangélicos (pentecostais), com 23%, exatamente os mesmos percentuais que os católicos e os evangélicos tradicionais perderam desde a última pesquisa, em 1968. Isso significa uma migração quase exata do percentual de fiéis que deixaram a religião Católica e os protestantes tradicionais para integrar as novas religiões dos pentecostais.

Em relação ao estado civil dos ijuienses, o maior percentual é o de casados: 52,0%. 34,0% responderam ser solteiros; 6,8% são viúvos; 4% separados e 2% “ajuntados”. Nota-se que o percentual de solteiros (34,0%) pode ser menor, pois, muitas vezes, casais convivem em união estável, mas, identificam-se como solteiros.

Para concluir, percebe-se que os resultados colhidos pela pesquisa, demonstram que existe uma melhora significativa nos níveis de escolaridade do ijuiense. No entanto, estes indicadores positivos da educação, não têm revertido em uma melhora na renda do cidadão. Mais de 90% do ijuiense ganha até 3 salários mínimos, índice considerado baixo para satisfazer as necessidades básicas de uma pessoa. Os baixos percentuais dos níveis de renda refletem nas principais dificuldades enfrentadas pelos entrevistados. 31% apontaram o desemprego como principal problema do Brasil. Estes dados podem estar ligados aos altos índices de insatisfação, frustração e insegurança apontadas pela pesquisa. A etnia branca continua sendo a preponderante, embora aqueles que se autodenominam moreno/pardos/mestiços tenha aumentado nas últimas décadas. Da mesma forma, os católicos continuam sendo a maioria. Porém, nota-se o decréscimo do catolicismo e, ainda mais acentuado o decréscimo dos evangélicos tradicionais em comparação com o crescimento vertiginoso dos evangélicos pentecostais.

 

NÓS – OS IJUIENSES: QUEM SOMOS E O QUE PENSAMOS (Parte II)

A percepção política do ijuiense

Hoje apresentamos informações relativas à percepção do ijuiense frente à política. Foram avaliados os serviços de Ijuí, a eficiência do Estado na aplicação dos recursos, a satisfação com o funcionamento da democracia, a identificação com partidos políticos e a tendência do voto do eleitor local.

A avaliação dos serviços em Ijuí

Perguntados sobre a avaliação da qualidade dos serviços em Ijuí, o resultado foi o seguinte: os serviços de melhor qualidade (com uma avaliação boa) oferecidos em Ijuí foram o transporte (66%), a educação (63,8%) e a telefonia (55,3%), seguidos pelos serviços de esporte, lazer e cultura (50,3%), saúde (46,5%) e habitação (36,5%) avaliados com uma qualidade intermediária. Os piores serviços avaliados em Ijuí foram o saneamento (34%) e a segurança com (24,8%).

Os serviços melhor avaliados foram o transporte e educação. No que diz respeito ao transporte, Ijuí conta com os serviços da Empresa Medianeira de Transporte, considerada uma das dez melhores empresas do país, segundo a Associação Nacional de Transportes Públicos - ANTP. Da mesma forma, Ijuí conta com uma das melhores estruturas educacionais da região, com dezenas de escolas da rede pública de Ensino (Municipal e Estadual), além de importantes escolas particulares (Colégio Evangélico Augusto Pestana - CEAP, Escola Sagrado Coração de Jesus e Centro de Educação Básica Francisco de Assis – EFA) e UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

Ineficiência do Estado e a questão da democracia

A classe política é vista pela maioria do ijuiense com desconfiança, assim como o Estado tem-se mostrado pouco eficiente na aplicação de seus recursos. Ante a afirmação de que “O Estado é eficiente na aplicação dos recursos públicos”, a maioria dos ijuiense, 46,8%, discordou da mesma, 39,5% concordaram em parte e apenas 11,3% concordaram totalmente. Isso significa que, para a maioria, o Estado aplica mal os recursos públicos. Além de aplicar mal, a qualidade dos serviços prestados pelo Estado é de baixa qualidade: 49,1% da população de Ijuí consideram ruim ou péssimo seus serviços. Somado a isso, 67,8% afirmaram pagar um valor muito alto em impostos pelos serviços prestados. Da mesma forma, é grande a insatisfação do ijuiense em relação à atuação dos governos municipal, estadual e federal. As três instâncias do Executivo receberam uma baixa avaliação positiva (muito bom e bom): Presidente 25,9%, Governador 16,8 e Prefeito 32,6%.
Tabela 2 – Avaliação dos governantes pelos ijuienses 2005 (%)

Tal insatisfação e ineficiência refletem-se nos baixos índices de confiança da população nas instituições políticas, inclusive seis variáveis ficando abaixo da linha dos 10% de confiança recebidos pela população.

Quanto à afirmação de que “Todos os políticos são corruptos”, a maioria dos ijuienses (77,8%) concordou em parte ou totalmente e apenas 21,5% discordaram da sentença. Tais percentuais demonstram que, para o eleitor, a corrupção ainda é um dos maiores males que atingem a classe política. Quanto às promessas dos políticos, a maioria concorda com a idéia de que eles apenas as fazem (52,8%), mas depois não as cumprem.

Os dados demonstram, ainda, que o ijuiense está pouco satisfeito com o funcionamento da democracia no Brasil. O percentual de insatisfação e pouca satisfação alcançam 82,5% contra apenas 14,0% que afirmam estar satisfeitos.

Identificação com partidos políticos

Segundo a pesquisa, 32,5% dos ijuienses identificam-se com um determinado partido político, enquanto 67,5% não se identificam com partido algum. Perguntados também com qual partido o entrevistado mais se identificava, o resultado foi: 15,5%, o maior percentual, é de pessoas que se identificam com o PT, seguidos de 9,8% com o PDT, 2,8% com o PMDB e 1,5% com o PP. Os demais partidos não ultrapassam a 0,3%. Estes dados demonstram que o eleitor petista identifica-se bem mais com o seu partido do que os eleitores de outros partidos, ou seja, o eleitorado petista, mesmo sendo menos de um quarto do eleitorado do município, assume bem mais o partido do que outros eleitores.

Como o eleitor ijuiense vota?

A maioria dos ijuienses (68,8%) considera importante votar nas eleições para mudar as coisas, o que significa, sem dúvida, uma disposição cívica. No entanto, 26,3% votam nas eleições somente porque é obrigatório. Caso o voto fosse facultativo, o percentual de pessoas que não votaria subiria para 34,3%. Infelizmente, o ato de votar não é visto como um gesto cívico (votar e ser votado - associar-se), mas, apenas como um dever, uma obrigação. Percebe-se igualmente que, quanto maior o grau de instrução das pessoas, mais o ato de votar acaba sendo importante para mudar as coisas. É também nos mais baixos níveis de escolaridade que se encontram os maiores percentuais dos que votam apenas porque é obrigatório e, porém, geralmente não votam.

O voto do ijuiense, segundo a pesquisa, tende a ser personalista: 80% votam na pessoa do candidato e apenas 10,3% seguem a ideologia do partido. No entanto, em Ijuí, nota-se que, além do personalismo, há, igualmente, uma predileção dos eleitores em votar nos candidatos trabalhistas nas eleições municipais, basta ver a hegemonia do PDT nos últimos 25 anos .

Sobre o clientelismo, perguntou-se ao entrevistado o que faria caso um candidato oferecesse dinheiro ou uma cesta básica em troca do voto; 7,8% dos entrevistados responderam que aceitariam e votariam no candidato, enquanto que 53,8% não aceitariam trocar o seu voto e 30,8% dariam um passo cívico a mais, não aceitariam a oferta e denunciariam aos órgãos competentes.

Variáveis referentes ao capital social de Ijuí

Esta última parte apresenta algumas percepções do ijuiense ligadas a variáveis do capital social como: participação em grupos sociais e instituições políticas de ordem convencional e não-convencional, confiança nas instituições e entre vizinhos, informação, discussão e interesse por política.

Participação em grupos ou organizações sociais

Perguntados se participavam de algum grupo ou organização, apenas 32,5% dos ijuienses responderam que sim, enquanto que 67,0% responderam não. A associação religiosa (igreja e grupo de jovens) é a que apresenta maior participação (12,5%), seguida pela associação cultural e recreativa (8,3%), os círculos de pais e mestres (2,3%) e as associações políticas e sindicais (2,0%). Quanto aos motivos da não-participação, foram atribuídos unicamente a razões pessoais, principalmente à falta de tempo. Não foi por falta de interesse próprio, nem mesmo por falta de credibilidade das instituições ou que a instituição não lhe trouxesse benefícios, ou seja, as pessoas estariam predispostas a participar mais, caso não fossem as inúmeras atividades em que estão envolvidas no dia-a-dia.

Ajuda e confiança nos vizinhos

Perguntados se podem contar com os vizinhos para cuidar da sua casa e/ou de seus filhos caso precisassem viajar por um ou dois dias, 64,0% responderam que podem contar com os vizinhos, embora um percentual de 19,0% tenha respondido que “provavelmente” e 16,5%, que não.

No entanto, se um bom percentual dos entrevistados respondeu que poderia contar com os vizinhos caso necessitasse, os dados seguintes apontam para uma baixa confiança entre os mesmos. Perguntou-se sobre a confiança nos vizinhos, e o resultado da pesquisa revelou que, para 43% dos entrevistados, são confiáveis. No entanto, o percentual de pouca confiança e não-confiança foram maiores, 55,8% dos entrevistados responderam que têm pouca confiança ou não confiam nos vizinhos. Mais especificamente ainda, perguntou-se se, em uma situação de emergência (doença ou desemprego), poderia contar com a ajuda dos mesmos, e apenas 9,0% dos entrevistados responderam que sim.

A falta de confiança também é uma realidade para o ijuiense em relação aos moradores do bairro em que vivem. Perguntados se podem confiar nas pessoas que moram no bairro, apenas 23,3% responderam que sim, enquanto que 42% responderam às vezes e 30,3% responderam que nunca se pode confiar. O bairro também é um lugar em que as pessoas podem tiram proveito umas das outras. Perguntou-se se no bairro era preciso estar atento, pois alguém poderia querer tirar vantagens de si. A maioria (45,5%) respondeu que sim, 31,3% que às vezes e apenas 19,3% responderam nunca. A confiança nas pessoas do bairro é ainda menor quando se refere ao empréstimo de dinheiro. Perguntados se as pessoas do bairro em geral não confiam uma nas outras para emprestar dinheiro, a maioria (47,3%) concordou com a afirmação respondendo sim, 21,3% discordou respondendo nunca e 24% responderam às vezes.

Participação política

A maioria dos ijuienses concorda que a participação na política pode contribuir para melhorar a situação do país, 66% responderam que a consideram importante para resolver os problemas do país, mesmo que esta fique, muitas vezes, apenas na predisposição. Perguntados se acham, igualmente, que a colaboração interpessoal pode contribuir para melhorar a situação do país, 76,3% responderam que sim. Da mesma forma, a maioria (94,2%) estaria disposta a contribuir para um projeto da comunidade, mesmo que este beneficiasse a outras pessoas e não a si diretamente. No entanto, quando perguntados se, nos últimos anos, as pessoas tentaram resolver algum problema local do bairro/comunidade junto com outras pessoas, apenas 32,8% responderam sim, enquanto 65,8% responderam não. Isso demonstra que as pessoas até concordam que a colaboração interpessoal possa transformar a realidade; porém, a atuação e a participação efetiva das mesmas na resolução dos problemas locais e nas instituições sociais são baixas.

Divideu-se ainda a participação em três formas distintas: a) política convencional, b) não-convencional e c) comunitária. Na forma convencional, a participação nos comícios aparece com os melhores índices, 40,1% afirmaram que participam ou já participaram, enquanto 59,5 afirmaram que não. No que se refere à participação em reuniões políticas, 24,3% afirmaram que participam ou já participaram contra 75,5% que não. Quanto à participação nos partidos políticos, 18,3% afirmaram que participam ou já participaram, contra 81,5% disseram não participar.

Quanto à participação não-convencional, 51,3% afirmaram que assinam ou já assinaram abaixo-assinados e 48,5% não; 26,5% responderam que já fizeram ou fazem manifestações e protesto, contra 72,8% que não se manifestam e nem protestam; 18,3% são favoráveis à greve ou já a fizeram, contra 81% são contrários a elas; e apenas 3,8% afirmaram que ocupam ou já ocuparam terrenos ou prédios públicos, enquanto 95,5% afirmaram que não.

Os percentuais são um pouco mais elevados quando é referida a participação comunitária: 68,3% responderam que participam ou já participaram de associações religiosas; 30,1% participam ou já participaram de associações comunitárias; da mesma forma, do Orçamento Participativo (quando existiu), 30,1% afirmaram ter participado contra 69,3% que não: 19,5% responderam que participam ou já participaram em associações sindicais; 17,5% que participam ou já participaram dos conselhos populares, contra 81,8% que não. Por fim, apenas 9,1% participam ou já participaram de ONG`s.

Constata-se que o maior percentual de participação da população de Ijuí dá-se na esfera social-comunitária, com uma média de 31,8% (Igreja, Associação comunitária, Associação sindical e ONGs). O segundo percentual de participação dá-se na esfera convencional, com uma média de 26,6% (partidos políticos, conselhos, Orçamento Participativo). Por último, com uma média de 25%, dá-se a participação na esfera não-convencional (greves, ocupação de terrenos, manifestações), o que exige um comprometimento e um envolvimento bem maiores das pessoas.

Os resultados da pesquisa 2005 em relação à pesquisa feita em 1968 ratificam que o cidadão ijuiense, além de participar mais assiduamente das instituições comunitárias, acredita que os meios não-políticos podem solucionar com maior eficiência os problemas locais.

Vê-se mais claramente esta preferência pelos meios não-políticos na solução dos problemas locais, quando agruparam-se as respostas em duas grandes categorias. Os meios políticos (convencional) somam 29,7%, enquanto que os meios não-políticos (associativo e comunitário) somam 48,0%.

Confiança interpessoal e nas instituições sociais

confiança nas pessoas e nas instituições é um indicador de cidadania e de espírito comunitário. No entanto, em Ijuí, o percentual de desconfiança entre as pessoas é preocupante: nada menos que 71,5% responderam que não se pode confiar nas pessoas, enquanto apenas 27% que sim. O percentual de confiança mútua da população ijuiense é superior à dos brasileiros, que fica em torno de 60% (CARVALHO, 2000). A confiança mútua seria a indicação do reconhecimento de que todos participam de valores e objetivos comuns em torno dos quais todos se congregam.

As questões referentes à confiança foram estendidas a instituições sociais e políticas. Os entrevistados foram perguntados se nelas confiavam muito, pouco ou não. O resultado demonstrou que o alto índice de confiança (confiam muito) deu-se em apenas duas instituições: família (90%) e Igreja (60,8%). Por outro lado, as instituições políticas foram as que apresentaram o maior percentual de pouca confiança e não-confiança: Governo Municipal (85,5%), Governo Federal (89%), Governo Estadual (92,5%), Câmara Municipal (93,8%), Assembléia Legislativa (94,6%), Partidos Políticos (94,8%) e Congresso Nacional (97,8%). Outras instituições sociais apresentaram elevados índices de pouca confiança e não-confiança, como foi o caso dos Meios de Comunicação Sociais (74,3%), Associações comunitárias (70,3%), Judiciário (71,6%), Sindicatos (75,3%) e Polícia (78,5%). Percebe-se a confiança existe apenas dentro do mundo religioso e das relações primárias, não no mundo civil e político.

Informação, discussão e interesse por política convencional

Embora os ijuienses tenham um bom percentual de informação política (59%), o bom índice não é o mesmo quando perguntados se os mesmos se interessam por política. 37,3% dizem “não” se interessar, 36,5% se interessam “mais ou menos” e apenas 26,0% que sim. Quanto à discussão sobre assuntos políticos, o percentual do “às vezes” discute política é de 65% das pessoas contra 18,5% que “sempre” e 16,5% “nunca”. O “às vezes” discute política também é alto no bate-papo entre amigos: 60% responderam que “às vezes”, 15,8% “sempre” e 23,8% “nunca”. Porém, quando perguntados se discutem os problemas do país com os amigos, o percentual é mais positivo: 38% afirmam discuti-los “regularmente”, seguidos por 52% que afirmam discuti-los “às vezes” e apenas 9,7% afirmam “nunca” discuti-los.

Avalia-se, igualmente, o perfil das pessoas que se mantêm informadas sobre assuntos políticos e se interessam por política, de acordo com a variável escolaridade. Os dados comprovam que, quanto maior a instrução das pessoas, maior é a informação sobre assuntos políticos.

Da mesma forma, quanto maior o nível de instrução das pessoas, maior é o interesse por política.

Por fim, nota-se que o ijuiense tem uma maior participação apenas em associações comunitárias (Igreja, associações culturais e recreativas) e uma baixa participação em associações sindicais e políticas (partidos e reuniões políticas, comícios, abaixo-assinados, manifestações ou protestos). O ijuiense considera importante a participação política, no entanto, participa pouco na resolução dos problemas locais. Quanto à confiança interpessoal e nas instituições, percebe-se que o ijuiense confia muito pouco. Apenas 30% dos entrevistados acham que se pode confiar nas pessoas. Da mesma forma, a desconfiança nas instituições políticas alcança índices elevados.

Se a comunidade ijuiense pretende retomar o caminho do desenvolvimento, aliado com o êxito social e econômico de forma equânime, é fundamental, regatar e incrementar os valores intangíveis do capital social (cooperação, confiança, participação). O capital social não é uma panacéia, é apenas um ingrediente que pode contribuir para alcançar este fim.

 

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Edição e atualização: Dr. Dejalma Cremonese - dcremo@yahoo.com.br