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Data da última Atualização: 18.05.2010 15:36

RESENHA DO 1º CAPÍTULO DO LIVRO “CASA-GRANDE E SENZALA
DE GILBERTO FREIRE ”:
Características gerais da colonização portuguesa do Brasil:
Formação de uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida

Casa Grande e Senzala é um livro que apresenta, além de uma poderosa interpretação do Brasil, um tom artístico que torna a leitura da obra prazerosa e interessante. Isso se deve ao fato de o autor ter optado pelo detalhe e por um estilo mais próximo do literário do que do acadêmico e mais próximo da clareza do que do obscurantismo que por vezes se verifica em obras igualmente importantes, porém menos agradáveis de se ler. Não sendo possível reproduzir aqui a riqueza de detalhes e a beleza do estilo da obra, optou-se por expôr de forma bastante concisa as principais ideias presentes no primeiro capítulo.

Freyre começa dissertando acerca do caráter do português, que não seria propriamente um europeu puro, estando Portugal entre a Europa e a África por questões não só climáticas e geográficas, mas também históricas, tanto culturais quanto genéticas, fruto das invasões mouras. Dessa forma, o português afro-europeu era um tipo “flutuante” que apresentava um “bambo equilíbrio de antagonismos”.

Essa africanidade portuguesa teria tido importantes impactos no Brasil. Um deles, seria o fato de que os colonizadores eram mais adaptáveis ao clima tropical, tendo a capacidade de instalar-se na colônia com relativo sucesso apesar do clima e de outros obstáculos dele advindos, como a má qualidade da maior parte da terra e a abundância de pragas. Tais dificuldades são ainda maiores do que parecem a primeira vista, desde que se leve em conta o fato de que o Brasil, por suas condições físicas, mas também pelas condições morais e materiais dos habitantes originais, não oferecia grande possibilidade de comércio, mineração, e outras atividades que teriam interessado muito mais ao colonizador (que, segundo Freyre, teria ainda certos laivos de semita), de modo que a agricultura se impunha como única alternativa econômica viável.

Outro impacto importante dessa africanidade portuguesa seria o fato dos portugueses não apresentarem uma consciência de raça, identificando-se mais como católicos do que como europeus. E ainda assim, católicos de um catolicismo africanizado. Essa ideia tem duas importantes consequências na obra de Gilberto Freyre: uma, a ingênua (ou talvez se pudesse dizer cínica) noção de “democracia racial”, que não diz respeito a esta breve resenha; outra, a ideia de que o catolicismo ocuparia o lugar dessa consciência, servindo de importante elemento definidor para a colonização. De fato, a metrópole permitia a entrada de estrangeiros na colônia – com a condição de que fossem católicos, e nada mais. Desse modo, chegavam ao Brasil pessoas das mais variadas origens, temperando com os sabores de inúmeros povos e culturas a já grande miscigenação que ocorria entre índios, negros e portugueses.

Gilberto Freyre, aliás, combatia ativamente os deterministas que condenavam o país a uma eterna situação de inferioridade causada pela mistura das raças ou pelo clima. Já no capítulo 1 o autor argumenta, com bastante propriedade, que a “inferioridade física” do brasileiro adivinha da dieta pobre (e, em menor grau, da sífilis), que era fruto das possibilidades limitadas da terra, mas também da opção por um modelo de monocultura latifundiária (que, se por um lado, tornou possível o desenvolvimento econômico do país, por outro, foi responsável por um sério deficit de nutrição do povo brasileiro). O autor afirma entretanto, em um momento de trágica ingenuidade, que os escravos eram mais bem nutridos que os senhores, pois estes reconheciam a importância de tirar o máximo proveito daqueles, que eram caros, de modo que se devia fazer render seu trabalho tanto quanto possível sem estafá-los para que pudessem continuar a ser explorados por um longo tempo.

A família patriarcal latifundiária, e não propriamente a metrópole, é que teria sido a grande força responsável pela colonização (daí, presumivelmente, o título do livro), desbravando terras inexploradas e expandindo consideravelmente as fronteiras para leste. O Estado português preocupava-se em manter um delicado equilíbrio que consistia em uma colonia unificada principalmente pela língua e pela religião, mas suficientemente permeada por regionalismos para manter-se longe da formação de uma identidade nacional que não seria do interesse da metrópole.

O autor observa ainda que havia uma forte dominação da mulher negra e nativa pelo colonizador e que fazia parte da estrutura familiar possuir um “leva-pancadas”, isto é, um menino cuja função era ser molestado e abusado de diversas formas (principalmente sexuais) pelo patriarca. A isso, segue-se uma curiosa análise psicológica, na qual o autor identifica o sadismo como traço importante da personalidade do homem brasileiro, cujas ações estariam permeadas por um sexual undertone, fruto dessa relação disfuncional com o sexo.

Freyre conclui o capítulo enfatizando que o Brasil constrói-se sobre um equilíbrio de antagonismos complexos e trocas culturais. Para o autor, graças à miscigenação deliberada induzida pelo estado português e ao caráter plástico dos colonizadores, a cultura portuguesa não teria sido propriamente imposta aos negros e índios – teria, isso sim, entrado em contato com as outras culturas presentes no país, todas se influenciando e moldando mutuamente.