Consumo
logo existo!
por
Dejalma Cremonese
“_
Compre, compre, compre...” Este é o clichê pronunciado
por um famoso vendedor televisivo do Brasil ao apresentar seus produtos
aos telespectadores. Com um estilo “divertido e original”
este apresentador (perito em vendas), nos leva a acreditar que suas
quinquilharias sejam essenciais para a felicidade e para a sobrevivência
humana. Não, não é, mas faz que assim seja. Esta
talvez seja a principal frase do império do consumo pronunciada
por boa parte da humanidade no momento: consuma logo exista!
Neste sentido, a todos a febre do consumo é difundida: ricos
e pobres, brancos, pretos, pardos, amarelos, mesmo que, por um lado,
tenhamos uma grande parte da população que consuma apenas
as “imagens” por meio das propagandas televisivas. Por outro,
temos os que se aventuram pelos “crediários das Casas Bahia”
(com prestações mensais de 60 vezes ou a perder de vista),
pagando duas ou três vezes a mais pelo preço real do produto.
Assim, muitos convivem com os “fantasmas” das prestações
que teimam em vencer, outros se endividam ainda mais para manter o padrão
de consumo. Uma dívida que será paga com um empréstimo
bancário que fará surgir outra dívida e assim a
bola de neve das dívidas tende a se acumular cada vez mais.
A nossa geração está consumindo como se fosse a
última geração a habitar o planeta terra. É
um sistema não sustentável que exaure riquezas naturais
e minerais sob forma espantosa. Se todo o mundo, por exemplo, consumisse
em média igual a um norte americano com seu ‘american way
of life’, teria que existir 2 a 4 planetas como o nosso, e o problema
que temos apenas 1. Portanto, diz-me quanto e o que consomes e te direi
quanto vales. O automóvel, o sonho de consumo de todos (símbolo
de poder e de prazer), é um dos bens de consumo mais desejado
dentre os homens na face da terra. As marcas, os modelos, a potência,
o design, o conforto, induz os consumidores a comprar. A cada ano alguma
coisa do automóvel é modificado, apresenta-se um “novo
modelo” que deve ser imediatamente comprado: só assim estarei
“colaborando” com o sistema. O carro que tenho (mesmo quando
ainda nem saudei sua dívida) já é antigo e ultrapassado.
Que sistema poderá agüentar tal consumismo? Por exemplo,
a cidade de são Paulo emplaca aproximadamente 800 novos carros
diariamente. Multiplique este número por 7 dias da semana (5.600),
por 30 dias do mês (24.000), por 365 dias no ano (292.000). São
quase 300 mil carros novos que começam a trafegar em apenas um
ano em uma cidade. Quais os custos sociais e ambientais para tal estratégia?
Engarrafamentos, monóxido de carbono, poluição,
acidentes...
Desde o nascimento somos induzidos e bombardeados pelas imagens televisivas
e propagandas a seguir um padrão de vida, de consumo, de felicidade:
“compre e seja feliz”. Minha pequena filha antes de aprender
a pronunciar “papai” ou “mamãe” apontou
para um outdoor colorido de um famoso refrigerante e balbuciou a sua
primeira palavra: “coca”, para a frustração
dos pais.
Vivemos assim civilização do “tempo integral”
que não se desliga. As vacas, as galinhas, as flores, as pessoas
já não dormem. A luminosidade faz com que vivamos um eterno
dia. Já não dormimos, já não descansamos,
já não sonhamos, já não nos alimentamos.
Vivemos a globalização do hambúrguer e a ditadura
do fast food, da plastificação da comida à escala
mundial, obra da McDonald's, Burger King e outras fábricas. O
“moderno” é levar (intoxicar) as crianças
e os jovens em tais “restaurantes”. Vivemos a sociedade
não apenas do “fast” food, mas do “fast”
drive, “fast” love, ou seja do “fast” life...
Assim, a qualidade de vida vem sendo substituída pelo “viver
apressadamente”, quem lucra com isso são as indústrias
farmacêuticas com seus sedativos, ansiolíticos e demais
drogas químicas. Nunca a palavra “stress” fora tão
pronunciada e vivenciada com hoje. Por exemplo, no Google em um comparativo
com a palavra “sexo” que tem 67.200.000 resultados, enquanto
que a palavra “stress” tem 171.000.000 resultados. Angústia,
depressão, pânico são também muito recorrentes...
Paradoxalmente a uma boa parcela da humanidade que morre por inanição,
a outra parcela morre por consequencia da fartura e do esbanjamento.
Glutões ávidos por pratos exóticos pagam fortunas
por um simples jantar nos melhores gourmets do mundo. A gordura e a
obesidade mórbida têm atingido milhares de pessoas em países
desenvolvidos causado mortes prematuras.
A sociedade de outrora se pautava no “ser”, nos nossos dias,
se pauta no ter e no aparecer. Não mais “sou”, nem
“tenho”, mas “pareço ter”, por que a
“imagem é tudo”. Quanto mais vivemos a era da comunicação
e da portabilidade (internet, celulares, agendas eletrônicas),
mais precária é a nossa comunicação intersubjetiva,
a sociabilidade sucumbiu em nome da individualidade. Somos mais infelizes,
mais fúteis e vazios do que outrora...
As marcas e as etiquetas comandam a ditadura do consumo. A “mentira
dita mais de mil vezes acaba por se tornar verdade”, a propaganda
sob forma repetitiva age da mesma forma no inconsciente da pessoa. Leva-nos
a consumir marcas não produtos. É comum irmos ao mercado
e adquirir a marca e não o produto: o Bombril (ao invés
de esponja de aço), a maizena (amido de milho), a Gillette (barbeador),
a coca-cola (refrigerante), Qboa (água sanitária), Omo
(sabão em pó), Kibon (sorvete)...
Somos condenados a viver a uniformidade não a diversidade. Quem
não seguir os “padrões” do consumo está
“fora da moda”. É motivo de desprezo e piadas...
Devo seguir o padrão de vida, de felicidade, de beleza daquela
atriz (ator), daquela(e) modelo, daquela revista. Devo vestir, comer,
sentir segundo o padrão da uniformidade. Quem estiver fora desse
padrão é “infeliz” e “excêntrico”.
O consumo tem sido a grande marca não apenas de pessoas comuns,
mas até dos próprios governos que instigam a sua população
a consumir para gerar mais empregos e um pseudo desenvolvimento. Quando
Bush logo após o ataque de 11 de setembro ou o nosso presidente
a pouco tempo, mandaram a população consumir estavam defendendo
o modelo do consumo atual. O Shopping Center (reino da fugacidade e
da futilidade) é o grande “templo” do consumo. Para
ele acorrem todos em peregrinações todos fiéis
colaboradores do sistema. Luzes, vitrines, manequins, escadas rolantes,
segurança, bens de consumo, alimentação, cinema,
arte, namoro... tudo o que é preciso para “bem viver”.